Introdução: A Reinvenção do Laço no Século XXI
A psicanálise contemporânea brasileira encontra-se em um momento de encruzilhada ética e clínica. Se no século XIX o mal-estar centrava-se na repressão dos desejos, hoje ele se manifesta na fragilidade dos vínculos, na desorientação das identidades de gênero e nas patologias da performance. Este artigo aprofunda as temáticas do Módulo 4 do nosso curso, explorando como a sexualidade, o narcisismo e a parentalidade são reconfigurados em uma cultura que recusa o limite e a falta.
I. Sexualidade, Corpo e a Falha do Simbólico
Para a psicanálise, o corpo não é apenas o organismo biológico estudado pela anatomia. Existe uma distinção fundamental entre o corpo biológico (o soma) e o corpo erógeno (o corpo investido pela linguagem).
1. O Corpo como Inscrição Simbólica
O corpo humano é uma superfície de inscrição. Desde o nascimento, ele é “atravessado” pelas palavras do Outro (pais, cultura). Quando um bebê é tocado e nomeado, sua carne biológica transforma-se em um mapa de zonas erógenas. O sintoma psicossomático ou a conversão histérica são provas de que o corpo fala: quando a palavra falha em mediar o sofrimento, o corpo “atua” a dor.
2. O Aforismo “Não há Relação Sexual”
Jacques Lacan provocou a intelectualidade ao afirmar que não há relação sexual. Isso não significa que os corpos não se encontrem, mas que não existe um “encaixe” perfeito, uma simetria absoluta entre os desejos. A sexualidade humana é, estruturalmente, um fracasso. O encontro com o outro é sempre marcado por um enigma e por uma falha. Na contemporaneidade, tentamos negar essa falha através da Tirania da Satisfação Mensurável, transformando o sexo em uma performance técnica (número de orgasmos, frequência, manuais de técnica), o que apenas aumenta a angústia e a sensação de vazio.
II. Narcisismo Fragmentado e as Esferas do Gênero
O sujeito contemporâneo sofre de uma nova forma de narcisismo, que Joel Birman classifica como Narcisismo Fragmentado.
1. A Tirania do Eu Ideal
Diferente do ideal do eu (aquilo que gostaríamos de ser com esforço), o Eu Ideal é uma exigência de perfeição imediata. O sujeito sente que deve ser bem-sucedido, belo e potente o tempo todo. Essa pressão gera uma vulnerabilidade extrema à crítica. Qualquer “falha” na imagem é vivida como uma desintegração do próprio ser.
2. A Fluidez de Gênero e a Angústia da Indeterminação
O debate contemporâneo sobre gênero retira a identidade do campo da biologia e a coloca no campo da cultura e da pulsão. Se, por um lado, isso liberta o sujeito de binários rígidos, por outro, gera o que chamamos de Angústia da Indeterminação. Sem os “rótulos” fixos do Outro Simbólico, o sujeito depara-se com o abismo de sua própria escolha.
Muitas reações de ódio e polarização social (o Gozo Transgressor Narcísico) são tentativas desesperadas de restaurar identidades fixas e dogmáticas diante de um mundo que se tornou fluido demais para egos tão fragilizados.
III. O Amor e a Ética da Solidão
Um dos maiores equívocos da nossa cultura é o Mito Romântico — a ideia de que o amor é a fusão de duas metades que se completam.
1. Solidão Estrutural vs. Abandono
A psicanálise ensina que a Solidão Estrutural é constitutiva. Entramos na linguagem e perdemos a conexão absoluta com o outro primordial. Aceitar essa solidão não é isolar-se, mas reconhecer que somos sujeitos separados. O amor maduro só é possível entre dois sujeitos que aceitam sua própria incompletude.
2. A Busca Neurótica por Fusão
Quando o sujeito recusa a solidão, ele busca a fusão simbiótica. Isso gera a Demanda de Amor excessiva: o parceiro é transformado em um suplemento que deve tapar todos os buracos da alma. Esse modelo é sufocante e leva à fragilidade dos laços, pois o outro real nunca conseguirá satisfazer a fantasia de completude do parceiro. O luto no vínculo — aceitar que o outro não é tudo — é o que permite que a relação dure.
IV. O Mal-Estar na Maternidade e a Função do Terceiro
A parentalidade é um dos terrenos onde a crise do laço social é mais visível.
1. A Desconstrução do Mito da Mãe Natureza
Vera Iaconelli e outras autoras destacam que a maternidade é atravessada por um mal-estar estrutural. O Mito da Mãe Natureza (instinto infalível e felicidade plena) silencia a ambivalência e a exaustão das mulheres. A chegada de um filho provoca uma Crise Narcísica: a mulher precisa deixar de ser o centro de seu próprio mundo para acolher um outro que é radicalmente diferente.
2. A Função Simbólica Paterna (O Terceiro)
Para que a criança se torne um sujeito de desejo, a ilusão da simbiose (mãe e bebê como um só) precisa ser rompida. Aqui entra o que a psicanálise chama de Função Paterna ou O Terceiro. Não se trata necessariamente do pai biológico, mas de qualquer instância (trabalho, lei, interesses externos) que lembre à mãe e ao bebê que existe um mundo além daquela dupla.
Este “corte” é o que permite a Inscrição do Filho como Sujeito. Sem o Terceiro, o filho fica aprisionado como objeto da demanda da mãe, impedindo sua autonomia.
V. A Politização do Cuidado e a Clínica do Laço
Por fim, a psicanálise contemporânea brasileira insiste na Politização do Cuidado. O sofrimento de uma mãe exausta ou de um sujeito em crise de identidade não é apenas um problema privado; é um sintoma social.
1. A Rede de Apoio como Terceiro Social
Em um mundo que prega o individualismo absoluto, a Rede de Apoio funciona como um Terceiro que alivia a culpa individual e permite a separação madura. O cuidado deve ser retirado da esfera estritamente biológica e transformado em responsabilidade ética e social.
2. A Clínica como Ato de Resistência
O papel do analista na clínica do laço social é sustentar a Diferença. Em um tempo de massificação e algoritmos, o analista aposta na singularidade de cada vínculo e na aceitação da castração (o limite) como a única via para um desejo real e não alienado.
Conclusão: O Desafio de Amar na Incompletude
Vínculos saudáveis não são aqueles onde não há conflito, mas aqueles onde a falta é permitida. Seja no gênero, na sexualidade ou na parentalidade, a psicanálise contemporânea brasileira nos convida a abandonar a fantasia da onipotência.
Ao aceitarmos que o corpo é linguagem, que o gênero é construção e que o amor exige solidão, libertamo-nos das amarras da performance e do narcisismo fragmentado. O objetivo da clínica e do estudo do laço social é, portanto, restaurar a dignidade da falha, permitindo que cada sujeito invente sua própria maneira de estar com o Outro sem perder a si mesmo.

