Adolescência e Contemporaneidade: A Travessia Ética e o Império da Imagem na Psicanálise Brasileira

A adolescência, sob o olhar da psicanálise, nunca foi um processo biológico simples ou um estágio de desenvolvimento linear. Ela é, fundamentalmente, uma travessia subjetiva. No contexto brasileiro atual, essa passagem ganha contornos de urgência e crise, onde o tradicional “tempo de moratória” — o intervalo socialmente aceito para experimentação — foi substituído por uma vitrine de performance digital e uma pressão precoce pela produtividade. Este artigo aprofunda os fundamentos teóricos e as leituras críticas que posicionam a adolescência como o ponto nevrálgico do mal-estar contemporâneo.


I. A Travessia Simbólica: Rompimento e Ressignificação

A adolescência é inaugurada pela puberdade (o real do corpo que se impõe), mas é processada no campo do Simbólico. Para Freud, é o momento da “segunda escolha de objeto”; para Lacan, é o instante em que o sujeito deve se haver com a falta no Outro.

1. O Luto pelas Figuras Parentais

O adolescente precisa realizar um duplo luto: o luto pelo corpo infantil e o luto pelos pais da infância (as figuras onipotentes). Como aponta a tradição psicanalítica brasileira, esse luto é hoje mais difícil. Em uma sociedade onde os adultos buscam o “rejuvenescimento eterno”, os pais muitas vezes não ocupam o lugar da alteridade que frustra, mas sim de “parceiros de consumo”, dificultando o rompimento necessário para a autonomia.

2. A Reativação Edípica

A adolescência reativa o Complexo de Édipo. O sujeito não mais fantasia o desejo; ele agora possui um corpo capaz de realizar o ato sexual e a violência. Essa “invasão pulsional” exige que a cultura ofereça suportes simbólicos para que o jovem não sucumba à angústia.


II. A Ordem Simbólica em Crise e a Passagem ao Ato

Maria Cristina Poli e outros pesquisadores destacam que a “travessia da ordem simbólica” está prejudicada. Vivemos uma época de fragilização da Lei e das referências tradicionais.

3. O Declínio do Nome-do-Pai

Quando a função do Nome-do-Pai (a função ordenadora da lei) falha, o adolescente fica desamparado. Sem uma lei que limite o gozo, a pulsão transborda.

  • Passagem ao Ato (Passage à l’acte): É quando o sujeito sai da cena simbólica e se “joga” no Real. Exemplos contemporâneos incluem as auto-mutilações, o uso abusivo de substâncias e a violência explosiva. A violência é, muitas vezes, uma tentativa desesperada de “inscrever” algo onde a palavra falhou.

III. O Eu Ideal e a Tirania das Redes Sociais

A “cultura do selfie” alterou a constituição do Ego adolescente. Maria Lúcia Leal analisa como a internet impõe um desafio clínico inédito.

4. A Performance Incessante

O adolescente sempre buscou o olhar do outro, mas hoje esse olhar é mediado por algoritmos e métricas de engajamento. O Eu Ideal (a imagem de perfeição que o sujeito aspira ser) torna-se inalcançável.

  • Identidades Flutuantes: A necessidade de validação externa constante impede a formação de uma identidade sólida. O jovem vive em uma “vitrine”, onde qualquer falha na performance é vivida como uma catástrofe narcísica, levando ao isolamento social ou à depressão.

IV. O Fim da Moratória e o Sofrimento Ético

A psicanálise no Brasil denuncia o fim da “moratória social” — conceito de Erik Erikson revisitado por Diana Lichtenstein.

5. A Antecipação Forçada do Futuro

O mercado exige que o adolescente decida sua carreira e seu “branding” pessoal cada vez mais cedo. Não há mais tempo para o erro, para o tédio ou para a “perda de tempo” necessária para o amadurecimento psíquico.

  • Desamparo: O resultado é um sofrimento ético. O jovem não sofre apenas por conflitos internos, mas porque não encontra um lugar no laço social que não seja mediado pelo consumo ou pela utilidade técnica.

V. Desorganizações Subjetivas: Da Neurose à Psicose

Christian Dunker contribui para o debate ao analisar como a fragilidade do laço social na adolescência pode precipitar crises graves. A adolescência é, historicamente, o período onde as estruturas clínicas (neurose, psicose, perversão) se estabilizam ou se desorganizam. Sem referências simbólicas sólidas, o “desabamento” da realidade simbólica pode levar a surtos psicóticos, onde o sujeito perde o contato com o consenso social.


VI. A Intervenção Psicanalítica como Ato de Resistência

Diante desse cenário, a psicanálise brasileira propõe uma clínica que não visa apenas a adaptação, mas a resistência cultural.

6. O Tempo da Elaboração

O papel do analista é oferecer um tempo que o mundo exterior nega: o tempo lógico.

  • Escuta vs. Protocolo: Enquanto a psiquiatria biológica tende a medicar o comportamento adolescente (patologizando o sofrimento ético como TDAH ou Depressão), a psicanálise busca o que o jovem tem a dizer através do sintoma.
  • Aposta no Desejo: A análise visa ajudar o adolescente a transformar a angústia em desejo, saindo da lógica do “Eu Ideal” das redes para o encontro com sua verdade singular.

Conclusão: O Resgate do Laço Social

A adolescência brasileira contemporânea é o reflexo de uma sociedade em crise de autoridade e excesso de imagem. O “grito” adolescente, seja através da depressão, da violência ou do vício digital, exige que a sociedade resgate a importância da Lei Simbólica e da presença humana real.

O futuro dessa geração não depende de melhores algoritmos, mas da nossa capacidade de oferecer um laço social sólido, onde a vulnerabilidade possa ser acolhida e a travessia para a vida adulta possa ser feita com sentido e autonomia, e não como uma performance vazia.

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