A psicanálise brasileira contemporânea enfrenta o desafio de compreender um sujeito que não habita mais as coordenadas freudianas da Viena do século XIX. O mal-estar, que antes se manifestava pelo excesso de repressão e culpa (a neurose clássica), hoje se expressa pela fragmentação, pelo vazio e pela aceleração. Este artigo mergulha nas raízes desse novo sofrimento, explorando a transição das patologias, a crise do laço social e o impacto das tecnologias de consumo na constituição do Eu.
I. Da Culpa ao Vazio: A Nova Geografia do Sofrimento
A obra de Joel Birman é fundamental para entender que a “geografia” do sofrimento mudou. Se na modernidade o sujeito sofria por querer e não poder (o conflito entre desejo e lei), na contemporaneidade o sujeito sofre por não sentir.
1. A Transição das Patologias
A neurose moderna era centrada no Complexo de Édipo e na função paterna, onde a lei simbólica organizava o mundo. Hoje, Birman aponta para a predominância das patologias do vazio e do narcisismo. O sofrimento atual não é tanto sobre o pecado ou a culpa, mas sobre a insuficiência. É o pânico, a depressão melancólica e o sentimento de desamparo que ocupam o centro da clínica.
2. O Regime da Urgência e o Colapso do Édipo
A globalização impôs um regime de aceleração que anula o tempo da espera — essencial para o desejo. A crise da função paterna (o declínio da lei simbólica) deixa o sujeito sem um anteparo para sua angústia, levando-o a buscar no consumo e na imagem uma forma rápida (e ineficaz) de suturar sua falta estrutural.
II. O Espelho Quebrado: Identidade e Cultura Brasileira
Contardo Calligaris trouxe reflexões cruciais sobre como a cultura brasileira lida com a autoridade e a imagem de si.
3. O Narcisismo e a Oscilação Nacional
O “narcisismo brasileiro” é descrito por Calligaris como uma oscilação constante entre a idealização potente (o Brasil como o país do futuro) e a depreciação melancólica (o “vaca de presépio” ou a vergonha nacional). Essa instabilidade reflete um Eu que busca desesperadamente validação externa, pois não possui uma lei interna sólida.
4. O Jeitinho e o Gozo da Exceção
O famoso “jeitinho brasileiro” é lido psicanaliticamente como uma recusa à lei universal. É o desejo de ser a exceção à regra. Esse fenômeno demonstra a fragilidade do Outro simbólico no Brasil: a lei só vale se não me atingir. Isso gera um laço social pautado pela “cordialidade”, que Calligaris vê como uma máscara para evitar a frieza (e a justiça) de uma lei que vale para todos.
III. A Instrumentalização da Falta: Consumo e Adição
A articulação entre desejo e mercado é magistralmente analisada por Pedro de Santi. Ele nos mostra como o capitalismo contemporâneo se tornou um “engenheiro do desejo”.
5. Vícios sem Substância
Não precisamos de substâncias químicas para sermos adictos. Gadgets, redes sociais e compras online operam na mesma lógica da adição. O mercado não vende produtos; ele vende a promessa de preencher a falta que constitui o ser humano. No entanto, como a falta é estrutural (nunca será preenchida), o sujeito entra em um ciclo de gozo tautológico: um excesso de consumo que não gera desejo, apenas a necessidade de repetir o ato.
6. O Eu-Mercadoria
O consumo tornou-se um culto à identidade. O sujeito “é” o que ele consome e o que ele exibe. O objeto de consumo funciona como um fetiche que promete uma plenitude impossível, fragmentando o Eu em uma série de performances de posse.
IV. Subjetividade no Ambiente Virtual: O Labirinto Digital
O ambiente virtual é o novo palco onde a subjetividade se constrói e se destrói. Pedro de Santi destaca os riscos dessa nova morada do Eu.
7. Fragmentação e Validação (Likes)
Nas redes sociais, o Eu se fragmenta em múltiplas personas. A identidade torna-se dependente da validação imediata do Outro (os likes). Quando essa validação falta, o sujeito cai no abismo da indeterminação. A tela funciona como um espelho digital que amplia o narcisismo, mas fragiliza o núcleo da personalidade.
8. A Fantasia da Onipotência e o Tempo Virtual
A conectividade 24/7 gera a ilusão de que somos onipresentes e onipotentes. Essa fuga do Real (o corpo físico, o cansaço, a morte) anula o limite. O tempo virtual ignora a espera necessária para a elaboração psíquica. O scroll infinito é a atividade compulsiva por excelência para evitar o encontro com o silêncio e o próprio vazio.
V. O Corpo como Última Fronteira: Somatização e Performance
Quando a palavra falha em expressar o mal-estar, o corpo assume o comando.
9. Patologias do Ato e do Corpo
Observamos hoje o crescimento de sintomas que se manifestam diretamente no corpo: anorexia, bulimia, vigorexia e as excessivas intervenções cirúrgicas. O corpo é o lugar onde o sujeito tenta inscrever uma identidade que o Simbólico não consegue sustentar. É a patologia da performance: o corpo deve ser perfeito para que o vazio interno não apareça.
Conclusão: A Clínica como Espaço de Resistência
O mal-estar na cultura contemporânea exige uma psicanálise que não se limite ao divã, mas que entenda as pressões da globalização e da tecnologia. O papel do analista hoje é restaurar a capacidade do sujeito de desejar, em vez de apenas consumir ou performar.
A clínica deve ser um ato de resistência política e ética, oferecendo ao sujeito o que o mundo virtual nega: o tempo da espera, o respeito ao limite e a aceitação da própria falta. Somente ao suportar o vazio, o sujeito pode deixar de ser uma mercadoria do mercado para tornar-se, enfim, o autor da sua própria história.
Guia de Práticas e Exercícios de Aprofundamento
Para transpor esses conceitos para a prática, propomos os seguintes exercícios de reflexão e intervenção subjetiva.
1. Exercício de Desconexão: O Encontro com o Vazio
Objetivo: Observar a reação do Eu diante da ausência de estímulos digitais.
- Prática: Reserve 60 minutos do seu dia para ficar sem qualquer dispositivo eletrônico. Sente-se em silêncio, sem livros ou distrações.
- Reflexão: Observe a angústia que surge. Quais pensamentos invadem sua mente? Qual é a urgência que você sente de “checar” algo? Esse exercício ajuda a identificar a dependência da validação externa e a dificuldade de sustentar o tempo da espera.
2. Cartografia do Consumo: Desejo ou Demanda?
Objetivo: Diferenciar o desejo autêntico da demanda induzida pelo mercado.
- Prática: Antes de sua próxima compra (mesmo pequena), pergunte-se: “O que este objeto vai calar em mim?”. Liste o que você espera sentir ao possuí-lo.
- Análise: Verifique se o objeto é uma tentativa de construir uma identidade (Eu Ideal) ou se atende a uma necessidade real. Note a rapidez com que a satisfação desaparece após a compra.
3. Análise da Persona Digital
Objetivo: Perceber a fragmentação da identidade nas redes sociais.
- Prática: Olhe para o seu perfil em uma rede social como se fosse um estranho. Quem é essa pessoa? Quais partes da sua realidade são sistematicamente ocultadas?
- Justificativa: Este exercício, baseado no conceito de narcisismo de Calligaris, permite enxergar a construção da imagem como uma defesa contra a falta estrutural e o quanto de energia psíquica é gasto na manutenção de uma performance vazia.
4. Prática da Lentidão (Contra o Regime da Urgência)
Objetivo: Restaurar o tempo lógico da elaboração.
- Prática: Escolha uma tarefa cotidiana (como cozinhar ou caminhar) e realize-a na metade da velocidade habitual, focando na percepção corporal.
- Comentário Clínico: De acordo com Joel Birman, a aceleração anula o recalque e a simbolização. Ao desacelerar deliberadamente, forçamos o psiquismo a retomar o contato com o corpo e com o tempo real, combatendo a impossividade ao ato.

