A Exaustão da Máscara: Vida Adulta entre o Burnout e a Sociedade do Espetáculo

Introdução: O Novo Mal-Estar na Civilização

Se Freud, no início do século XX, identificou o mal-estar na civilização como o fruto da repressão dos impulsos sexuais e agressivos em troca de segurança e cultura, o adulto do século XXI enfrenta um mal-estar de natureza inversa. Não somos mais a sociedade da proibição, mas a sociedade da performance. O sofrimento contemporâneo, manifestado no Brasil de forma aguda, não decorre do “não poder”, mas de um “poder ilimitado” que se transforma em autoexigência tirânica.

A transição para a vida adulta hoje não é mais marcada por ritos de passagem claros, mas por uma entrada abrupta em um regime de dupla face: a produtividade frenética (Burnout) e a exibição constante de uma felicidade inabalável (Espetáculo).

I. A Dialética da Performance: Do Trabalho ao Esgotamento

O conceito de Burnout ultrapassou os limites da medicina ocupacional para se tornar um sintoma sociopsicanalítico. No cenário brasileiro, onde a precarização do trabalho e o “empreendedorismo de si” são imperativos, o sujeito funde sua identidade pessoal com sua função produtiva.

O Supereu e o Imperativo do Gozo

Na psicanálise clássica, o Supereu era a instância que dizia “Não. No neoliberalismo, como bem articulam os psicanalistas brasileiros contemporâneos, o Supereu sofreu uma mutação: ele agora ordena “Goze!”. Este “gozo” não é prazer, mas uma exigência de performance. O adulto deve extrair o máximo de si em cada minuto.

A fusão entre vida pessoal e trabalho cria uma “servidão voluntária”. O indivíduo não precisa mais de um feitor externo; ele se torna seu próprio explorador. O esgotamento psíquico generalizado ocorre quando a “esperança de um sucesso imaginário” — aquele que vemos nos painéis de coaching e LinkedIn — colide com a finitude do corpo e da mente.

II. Mark Fisher e o Realismo Capitalista: A Individualização do Sofrimento

Para entender a crise da vida adulta, é imperativo o diálogo com Mark Fisher. Em sua obra Realismo Capitalista, Fisher argumenta que vivemos em uma atmosfera onde é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo.

A Privatização do Estresse

Um dos pilares do Realismo Capitalista é a psiquiatrização do sofrimento. Quando um adulto entra em colapso por excesso de trabalho, o sistema tende a tratar isso como um desequilíbrio químico individual ou uma falha de “resiliência” pessoal.

  • O Erro Médico-Sistêmico: Ao tratar o Burnout apenas com fármacos, silencia-se o sintoma.
  • A Visão Psicanalítica: A psicanálise brasileira propõe o caminho inverso: é preciso ouvir o que o sintoma diz sobre a estrutura social. O esgotamento não é apenas um “defeito” do indivíduo, mas uma resposta coerente a uma estrutura de exploração insustentável.

III. O Império da Imagem e o Narcisismo Coletivo

Paralelamente à fábrica do trabalho, existe a fábrica da imagem. Guy Debord já antecipava a “Sociedade do Espetáculo”, mas hoje essa espetacularização penetrou na intimidade através das redes sociais.

Christian Dunker e a Patologia do Vazio

Christian Dunker, um dos principais nomes da psicanálise no Brasil, analisa como a dissolução dos laços sociais sólidos deu lugar a uma busca por uma “identidade perfeita”. O adulto contemporâneo habita uma “armadura imaginária”. O sofrimento é escondido atrás de filtros e narrativas de sucesso. Isso gera o que Dunker chama de crise da intimidade: as pessoas se encontram como personagens, mas não como sujeitos. O medo de acessar a “falta” (o reconhecimento de que não somos completos) impede que as análises e as relações se aprofundem. Sem falta, não há desejo; há apenas consumo.

IV. Amor Líquido e a Recusa do Desejo

A vida adulta madura exige a capacidade de sustentar perdas e lutos. No entanto, vivemos a era da descartabilidade das relações.

Maria Rita Kehl e a Castração

Maria Rita Kehl destaca que o amor adulto requer o reconhecimento da castração — aceitar que o outro não pode nos completar e que nós não podemos completar o outro.

  • O Desejo Líquido: Zygmunt Bauman cunhou o termo, e a psicanálise o aprofunda. O adulto “líquido” evita o compromisso porque o compromisso implica em luto (escolher um caminho e abandonar outros).
  • A Recusa do Outro: Ao evitar a dor do amor maduro, o sujeito cai em um narcisismo estéril, onde o outro é apenas um objeto de consumo descartável assim que deixa de validar a nossa imagem.

V. A Ética da Responsabilidade: O Contraponto de Jorge Forbes

Em meio a esse cenário de passividade diante do sistema e fragilidade nos laços, surge a proposta ética de Jorge Forbes. Para ele, o mundo atual é “desbussolado” — as antigas leis do pai e as tradições não servem mais de guia absoluto.

Inconsciente e Responsabilidade

A resposta psicanalítica à crise da vida adulta não é o retorno ao passado, mas a assunção da responsabilidade.

  1. Sair da Servidão Voluntária: Parar de se vitimizar diante das exigências do mercado e perguntar: “O que eu quero, para além do que me mandam querer?”.
  2. Assumir o Próprio Desejo: O desejo é o que nos move. Diferente da necessidade (que se satisfaz com um objeto) e da demanda (que busca o amor do outro), o desejo é sempre falta e movimento.

VI. Conclusão: O Refúgio da Elaboração

A clínica psicanalítica do século XXI não busca “consertar” o adulto para que ele volte a ser produtivo. Pelo contrário, ela busca oferecer um tempo de elaboração.

Enquanto o mundo exige a velocidade do clique e a eficácia da métrica, a psicanálise reafirma o valor do tempo lento. Lutar contra o Burnout e contra a liquidez das relações exige:

  • Furar a armadura imaginária: Aceitar que somos falhos, finitos e incompletos.
  • Fazer o luto das promessas narcísicas: Aceitar que não teremos tudo e não seremos amados por todos.
  • Sustentar o desejo: Encontrar sentido naquilo que é autêntico, e não apenas no que é postável ou rentável.

A vida adulta, sob a ótica da psicanálise contemporânea brasileira, é o desafio ético de viver a liberdade em um mundo que prefere nos ver como engrenagens exaustas ou imagens brilhantes, mas vazias.

Deixe um comentário