A Invenção de Si no Crepúsculo dos Mestres: Psicanálise, Micro-política e a Ética da Criação

Introdução: O Horizonte da Clínica Pós-Moderna

Chegar ao final de um percurso sobre a psicanálise contemporânea brasileira é compreender que a clínica saiu definitivamente das paredes acarpetadas dos consultórios para habitar a pólis. Se o século XX foi o século do recalque e da repressão, o século XXI é o século da dispersão e da performance. O desafio atual não é apenas “liberar o desejo”, mas evitar que ele seja capturado pelas máquinas de consumo e produtividade.

O quinto módulo articula a força produtiva do desejo de Suely Rolnik, a crítica ao espaço público de Christian Dunker, a responsabilidade ética da escolha de Jorge Forbes e a sensibilidade poética de Rubem Alves. Juntos, esses autores desenham o futuro da prática: uma psicanálise que sustenta o risco e a beleza da incompletude.


I. Cartografias do Desejo: A Psicanálise como Ato Micro-político

A contribuição de Suely Rolnik (em diálogo com Deleuze e Guattari) desloca a psicanálise de uma visão meramente representativa para uma visão produtiva.

1. Desejo como Produção, não como Falta

Diferente da tradição clássica que vê o desejo como a busca por algo que nos falta, a esquizoanálise de Rolnik propõe que o desejo é uma força de expansão, uma energia que produz realidade.

  • A Captura e a Territorialização: O capitalismo contemporâneo funciona como uma máquina de “captura”. Ele pega essa força criativa e a canaliza para territórios rígidos: a carreira perfeita, a família padrão, o corpo idealizado.
  • O Édipo como Código: Aqui, o complexo de Édipo é criticado não como uma verdade universal, mas como um código cultural que restringe a pluralidade do desejo à triangulação familiar, reduzindo a potência da vida a dramas privados.

2. Linhas de Fuga e Singularização

O objetivo da clínica micro-política é traçar linhas de fuga. Não se trata de “fugir da realidade”, mas de desterritorializar-se — romper com as identidades fixas e massificadas para permitir a singularização. Singularizar-se é inventar uma existência que não seja um reflexo do mercado, mas uma expressão da própria potência vital.


II. O Sintoma Social e o Espaço Público

Christian Dunker expande a escuta clínica para o fenômeno social. Em um mundo onde o sofrimento é privatizado (como se fosse apenas uma falha biológica do indivíduo), Dunker politiza o sintoma.

1. A Patologia da Performance

O grande mal-estar atual é a obrigação de ser “eficaz”. A performance tornou-se a nova moralidade. O Burnout e a depressão por exaustão são os custos psíquicos dessa exigência. Dunker propõe que a clínica deve ser um refúgio contra a performance, um lugar onde o sujeito possa falhar, duvidar e ser “improdutivo” sem ser punido.

2. O Palhaço e o Ridículo

A metáfora do palhaço no espaço público serve para descifrar o absurdo das nossas instituições. Quando a ordem social se torna rígida ou farsesca, o “ridículo” emerge como o retorno do real que a ordem tenta esconder. A psicanálise deve ajudar o sujeito a rir da própria armadura idealizada, desconstruindo o eu ideal que nos adoece.


III. Quaternidade: A Ética da Escolha Radical

Jorge Forbes traz a psicanálise para o contexto da globalização e da pós-modernidade, período que ele denomina Quaternidade.

1. A Dispersão do Outro

Na modernidade (Édipo), tínhamos o “Grande Outro” (Deus, o Pai, a Lei) que nos dizia o que fazer. Na Quaternidade, esse Outro está disperso. Não há mais mestres estáveis ou garantias externas. Vivemos em um “mundo sem bússola”.

  • Consequência: Isso gera uma angústia profunda, pois o sujeito está “condenado” a escolher tudo: desde sua carreira até sua identidade e valores, sem um manual de instruções.

2. A Responsabilidade Ética vs. Culpa Neurótica

Forbes diferencia a culpa da responsabilidade. A culpa olha para o passado e para a lei violada. A responsabilidade ética olha para o presente e para o ato. Diante da incerteza, o sujeito deve fazer uma escolha radical e sustentar as consequências dessa escolha. A clínica do futuro é aquela que prepara o sujeito para o risco, trocando a segurança da repetição pela coragem da invenção.


IV. A Poética do Sofrimento e a Estética da Existência

Para fechar o percurso, a ética humanista de Rubem Alves nos devolve a sensibilidade. A psicanálise não é apenas lógica; é beleza e escuta poética.

1. A Metáfora da Pérola

Talvez o conceito mais belo do módulo: “A ostra feliz não faz pérola”. A pérola é o resultado da irritação causada por um grão de areia. O sofrimento, na psicanálise, não deve ser simplesmente eliminado por fármacos; ele deve ser transformado em criação. O sintoma é o “grão de areia” que nos obriga a criar uma “pérola” (um sentido novo para a vida).

2. O Valor do Ócio e o Culto à Linguagem

Alves defende o ócio e a lentidão. Em uma cultura de pressa, o pensamento profundo exige o tempo suspenso. A clínica é o culto à linguagem e à palavra plena. O psicanalista deve ser um poeta da escuta, capaz de transformar o “Real” da dor em “Simbólico” da poesia. A aceitação da nossa fragilidade é o que nos torna verdadeiramente humanos e conectáveis.


V. Conclusão: O Analista como Agente de Despertar

O futuro da psicanálise no Brasil passa por uma prática que não se cala diante das injustiças e que não se limita a adaptar o sujeito à sociedade.

Concluímos que a vida adulta contemporânea exige uma tripla tarefa:

  1. Cartografar o desejo: Identificar onde estamos sendo capturados.
  2. Assumir a escolha: Aceitar que não há garantias e que o risco é o preço da liberdade.
  3. Criar a pérola: Transformar nossas feridas narcísicas em potência criativa.

A psicanálise permanece viva enquanto for capaz de sustentar o enigma do ser humano contra as respostas prontas do mercado. Como diria Rubem Alves, a clínica é o lugar onde a dor ganha nome e o vazio ganha cor. Que este curso tenha sido, para cada um, um mapa para traçar suas próprias linhas de fuga.

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