Introdução: O Desafio da Clínica no Século XXI
A psicanálise contemporânea brasileira enfrenta um cenário onde o sofrimento psíquico não se manifesta mais apenas através das neuroses clássicas de Freud — marcadas pelo recalque e pelo desejo proibido. Hoje, o analista se depara com o “novo mal-estar”: a paralisia do desejo, o ressentimento social, a melancolia profunda e as adições compulsivas.
Este artigo aprofunda os pilares do Módulo II do nosso curso, explorando a transição da metapsicologia para a prática clínica. Investigaremos como a ética do analista, a dinâmica da melancolia e a lógica das toxicomanias se entrelaçam para formar o mapa do sofrimento atual.
I. O Ofício do Analista: Uma Ética do Desejo
O fazer psicanalítico não é uma técnica de aconselhamento, mas um ofício ético. Conforme as reflexões de Contardo Calligaris, a posição do analista exige o que chamamos de Recusa à Onipotência.
1. O Manejo da Transferência
O motor de qualquer análise é a Transferência. Freud descobriu que o paciente projeta no analista figuras de sua infância (amor, ódio, autoridade). No entanto, a transferência é paradoxal: ela é o motor que traz o material inconsciente à tona, mas também é a maior Resistência, pois o paciente prefere “repetir” o padrão com o analista a “lembrar” e “elaborar” o trauma.
2. O Tempo Lógico contra a Tirania do Imediatismo
Diferente da medicina ou do coaching, a psicanálise opera no Tempo Lógico (Kairós). O analista deve sustentar o “não-saber” e resistir à Demanda Neurótica por Solucionismo. Em uma cultura que exige respostas instantâneas, o analista defende o tempo necessário para que o insight amadureça. O silêncio do analista não é omissão, mas o espaço necessário para que o desejo singular do paciente possa finalmente ser ouvido.
II. Posição Melancólica: A Sombra do Objeto
A depressão é frequentemente tratada como um desequilíbrio químico, mas a psicanálise a investiga como uma estrutura: a Melancolia.
1. O Luto Fracassado
No luto normal, o sujeito perde alguém ou algo, sofre e, com o tempo, reinveste sua energia em novos projetos. Na melancolia, há um Fracasso na Simbolização do Luto. O sujeito não consegue deixar o objeto ir; em vez disso, ele o “engole” (incorporação).
2. A Autoacusação e a Perda do Eu
Como Freud descreveu em Luto e Melancolia, a sombra do objeto cai sobre o Eu. O melancólico se insulta e se diminui não porque ele seja “mau”, mas porque ele está dirigindo ao próprio Eu o ódio que sentia pelo objeto que o abandonou. A Autoacusação Virulenta é, na verdade, uma agressividade deslocada. O manejo clínico aqui exige cautela: o analista não deve “elogiar” o paciente para animá-lo, mas ajudá-lo a desfundir sua identidade desse objeto incorporado.
III. Depressão Social e Ressentimento Neoliberal
Maria Rita Kehl traz uma contribuição vital ao politizar a depressão. Ela argumenta que o sofrimento atual é o custo psíquico da Ilusão de Autonomia Neoliberal.
1. O Sujeito do Ressentimento
O Ressentimento é o afeto central da nossa época. Ele surge quando o sujeito, incapaz de lidar com sua própria falta ou fracasso, projeta a culpa no “Outro” (o sistema, a família, o parceiro). O ressentido vive de “cobrar dívidas” do passado, o que gera uma paralisia do desejo. Ele prefere ter razão sobre sua dor a se curar dela.
2. A Tirania da Felicidade Obrigatória
Vivemos sob a ditadura da performance. O fracasso é vivido como vergonha, não como parte da vida. A clínica psicanalítica atua como um Ato de Resistência Política ao legitimar a insatisfação e o tempo da lentidão, contrapondo-se à aceleração desenfreada que consome a subjetividade.
IV. Toxicomania e Adição: O Gozo Tautológico
No capítulo final deste módulo, abordamos as adições. Na perspectiva da Psicopatologia Fundamental, a droga (ou o comportamento aditivo) funciona como um “suplemento” para a falta estrutural.
1. O Objeto que Satura
Diferente do desejo, que busca algo sempre novo (metonímia), a toxicomania busca o Gozo Tautológico. A droga atua como um “tapa-buraco” para a angústia da castração. É um gozo autista: o sujeito não precisa do outro para se satisfazer; ele se fecha em um circuito vicioso com a substância.
2. A Ruptura com o Simbólico
O viciado troca a palavra pelo ato. Em vez de falar sobre sua dor, ele “atua” consumindo. O desafio da clínica da toxicomania (incluindo as adições sem substância, como o vício em redes sociais e jogos) é restaurar a mediação da palavra. O objetivo é fazer com que o sujeito passe do “ato mudo” para o “desejo que fala”, aceitando que o vazio da existência não pode ser preenchido por objetos, mas apenas contornado pela linguagem.
Conclusão: A Escuta como Caminho para a Singularização
O Módulo II nos ensina que o analista é o guardião de um espaço onde o sofrimento pode ser transformado em história. Seja na melancolia, no ressentimento ou na adição, o objetivo final é a Singularização.
A psicanálise contemporânea brasileira nos convida a sair da massa e da performance para encontrar o que há de mais próprio em nós: o nosso desejo. Aprender a ética do ofício e as estruturas da psicopatologia é, antes de tudo, aprender a respeitar o tempo humano em um mundo que tenta transformá-lo em mercadoria.

