Mapa de Perfis e a Subjetividade no Século XXI: Uma Análise Psicanalítica da Contemporaneidade Brasileira

Introdução: O Sujeito na Era da Incerteza

A psicanálise, desde sua fundação por Sigmund Freud, nunca foi uma disciplina estática. Ela se propõe a ler o mal-estar de sua época. Se no final do século XIX o sofrimento era marcado pelo recalque da sexualidade e pelas grandes histerias, o século XXI nos apresenta um novo mapa de perfis. No Brasil contemporâneo, esse cenário é complexificado por uma herança colonial, desigualdades abismais e uma cultura que oscila entre a cordialidade e a agressividade explosiva.

Este artigo explora o “Mapa de Perfis”, uma ferramenta teórica para compreender como o inconsciente se manifesta em uma era de urgência, fragmentação digital e fragilização dos laços simbólicos.


I. Os Fundamentos Estruturais: Inconsciente e Pulsão

Para compreendermos os perfis contemporâneos, devemos reafirmar a Existência Ontológica do Inconsciente. Diferente do que propõem certas neurociências reducionistas, o inconsciente não é um “erro de processamento” ou uma sombra da consciência. Ele é um sistema psíquico com leis próprias (processo primário), onde o tempo é atemporal e a realidade é psíquica.

O conceito de Pulsão é o motor dessa estrutura. Localizada na fronteira entre o somático e o psíquico, a pulsão não busca apenas a sobrevivência (instinto), mas a satisfação. Na contemporaneidade, a pulsão perdeu seus “diques” tradicionais — a vergonha, a moral e a autoridade. O resultado é o que vemos nas Patologias do Ato, onde o sujeito não consegue transformar a tensão interna em palavra, restando-lhe apenas o agir impulsivo.


II. A Estrutura do Sujeito e a Crise do Simbólico

A Estrutura do Sujeito — seja ela neurótica, psicótica ou perversa — é definida pela sua relação com a linguagem e com o Outro Simbólico (a instância que representa a lei, a cultura e a alteridade).

1. A Crise do Complexo de Édipo

Tradicionalmente, o Édipo funcionava como o operador que introduzia o limite: “você não pode tudo”. Hoje, assistimos a uma fragilização da função paterna. Não se trata da ausência do pai biológico, mas da falência da função que separa o sujeito da relação primordial de dependência.

  • Consequência: A dificuldade de adultos jovens em assumir responsabilidades (a “geração canguru”) e a busca por líderes messiânicos que ocupem esse lugar de autoridade perdida.

2. A Dispersão do Outro

Antigamente, as instituições (igreja, estado, família tradicional) ofereciam um roteiro de identidade. Com a Dispersão do Outro, essas âncoras desapareceram. O sujeito moderno está “solto”, o que gera uma liberdade angustiante e a queda nas Patologias do Vazio. Sem um sentido dado de fora, o sujeito sente um abismo interno que tenta preencher com consumo ou substâncias.


III. Narcisismo e Identidade na Era Digital

O Narcisismo Fragmentado é, talvez, a característica mais visível do perfil contemporâneo. O “Eu” tornou-se uma vitrine que depende de validação constante (o “like”).

1. A Jornada da Fragmentação

O ambiente virtual potencializa a Fragmentação da Identidade. O sujeito deixa de ser uma unidade coerente para se tornar uma coleção de perfis: o profissional no LinkedIn, o estético no Instagram, o agressivo no Twitter. Essa “personagem” criada busca esconder a Incompletude, mas acaba gerando um cansaço extremo, pois manter essas máscaras exige uma energia psíquica colossal.

2. Narcisismo Brasileiro: Entre o Complexo de Vira-lata e a Megalomania

No Brasil, o narcisismo assume uma face específica. Oscilamos entre a auto-depreciação radical e a idealização de lideranças que prometem a salvação. Esse movimento é o que chamamos de Narcisismo Brasileiro, onde a identidade nacional é vivida como uma ferida aberta, facilitando a polarização e o ódio ao “outro” que é visto como a causa de todos os males.


IV. O Regime da Urgência e o Vício sem Substância

Vivemos sob o Regime da Urgência do Ato. A globalização e a tecnologia eliminaram o tempo de espera. Na psicanálise, o “tempo de compreender” é essencial para a elaboração simbólica. Sem esse tempo, o sujeito cai no Gozo Tautológico.

1. Adição sem Substância e a Atividade de Clicar

O vício contemporâneo não é apenas químico. A Atividade Compulsiva de Clicar e o Binge Watching funcionam como uma tentativa de anular a angústia através da repetição. O prazer não está no conteúdo do que se vê, mas no ato repetitivo de “scrollar”. É uma tentativa de tamponar a falta estrutural com um excesso de objetos que, ao final, deixam o sujeito ainda mais vazio.

2. O Gozo da Exceção

Em uma sociedade que prega a autonomia total, surge o Gozo da Exceção. É o perfil daquele que acredita que a lei só se aplica aos outros. No Brasil, isso se traduz no “você sabe com quem está falando?”, onde o sujeito busca satisfação ao se colocar acima das normas coletivas.


V. O Sofrimento na Performance: Burnout e Depressão

A Patologia da Performance é o mal-estar do “sujeito empreendedor de si mesmo”. O imperativo neoliberal não diz mais “você deve” (Superego proibidor), mas sim “você pode” (Ideal do Eu exigente).

Quando o sujeito não atinge o ideal de corpo, carreira e felicidade imposto, ele não sente culpa, mas Vergonha e Fracasso. Isso leva à Melancolia, onde a agressividade que deveria ser dirigida ao sistema é voltada para o próprio Eu. O Abraço da Melancolia torna-se uma posição confortável de vítima, onde o sujeito se retira do mundo por não conseguir sustentar a máscara da perfeição.


VI. Ódio, Ressentimento e Polarização Social

O Ressentimento é o afeto central da nossa época. Ele surge da impotência: o sujeito se sente injustiçado pelo mundo e projeta essa frustração em um inimigo.

1. A Micro-política do Desejo

A análise não deve se limitar ao consultório, mas investigar a Micropolítica: como o poder e o desejo circulam nas pequenas relações. O ódio político atual é uma manifestação de afetos primários. O oponente não é alguém com ideias diferentes, mas um “objeto mau” que precisa ser extirpado para que o sujeito recupere sua integridade narcísica.

2. Gozo no Real

Quando a palavra falha, o que resta é o Gozo no Real — a violência bruta, o grito, a destruição. A polarização nas redes sociais é um exemplo claro de como o sujeito abre mão da mediação simbólica para atingir um prazer imediato e destrutivo na desumanização do outro.


VII. A Ética Psicanalítica como Resistência

Perto do fim deste mapa, encontramos as saídas éticas propostas pela psicanálise contemporânea.

1. Crítica à Felicidade Obrigatória

A psicanálise é uma das poucas disciplinas que defende o “direito à tristeza”. Criticar a Felicidade Obrigatória é um ato de resistência contra a medicalização da vida e contra o pensamento positivo tóxico. Reconhecer que a vida contém luto, perda e insatisfação é o primeiro passo para a saúde mental.

2. Ética da Incompletude

Assumir que somos seres faltantes, incompletos e que nunca teremos “tudo” é libertador. É a Ética da Incompletude que permite que o desejo continue circulando. Se tivéssemos tudo, o desejo morreria.

3. A Invenção do Futuro

A psicanálise não é um determinismo do passado. Embora investiguemos a história do sujeito, o objetivo final é a Invenção do Futuro. O sujeito não precisa repetir o padrão de sofrimento de seus pais; ele pode, através da análise, fazer uma escolha ética por um caminho novo.


Conclusão: O Papel do Analista

O analista hoje deve ocupar o lugar do Sujeito da Dúvida. Ele não é o mestre que dá conselhos ou receitas de felicidade, mas aquele que sustenta o vazio para que o paciente possa preenchê-lo com sua própria verdade.

O Mapa de Perfis nos mostra que, embora o mal-estar tenha mudado de rosto, o humano continua buscando a mesma coisa: ser reconhecido em seu desejo e encontrar uma forma suportável de viver com sua própria singularidade em um mundo que tenta, a todo custo, nos massificar.

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