Introdução: A Família como Palco e Prisão
A família é, historicamente, o laboratório da subjetividade. É no encontro (ou desencontro) com os primeiros cuidadores que o ser humano é introduzido na linguagem, no desejo e na lei. No entanto, a contemporaneidade brasileira assiste a um fenômeno paradoxal: ao mesmo tempo que as configurações familiares se pluralizam, a pressão por uma “felicidade de vitrine” nunca foi tão esmagadora.
O mito da família perfeita não é apenas um clichê publicitário; é uma estrutura defensiva que nega o conflito e, ao fazê-lo, imobiliza o sujeito. Quando o mal-estar é varrido para debaixo do tapete, ele retorna de forma sintomática: na violência doméstica, no feminicídio e nos traumas silenciosos que atravessam gerações.
I. A Tirania da Felicidade e a Negação da Ambivalência
Como bem apontam Diana Lichtenstein Corso e Mário Corso, vivemos sob o império da satisfação plena. Na vida familiar, isso se traduz na obrigação de que pais e filhos vivam em um estado de harmonia constante.
1. O Ódio Inerente ao Laço
A psicanálise ensina que onde há amor, há ódio. A ambivalência é estruturante. O bebê ama a mãe que o alimenta, mas odeia a mesma mãe quando ela se retira. Negar esse ódio é patológico. Quando uma família não permite a expressão do conflito, ela impede que os membros processem suas frustrações, gerando um ambiente de passividade agressiva ou explosões de violência real.
2. A Equilação da Falta
A família “perfeita” tenta ser autossuficiente, sem falta. No entanto, o desejo só circula onde há um buraco, uma ausência. Se os pais tentam preencher todos os espaços da vida do filho, eles o sufocam, impedindo que ele se torne um sujeito desejante. A felicidade imposta à força é, na verdade, uma forma de tirania que nega a humanidade do outro.
II. A Função Paterna e a Terceiridade em Tempos de Crise
Um dos maiores erros da compreensão popular da psicanálise é confundir “função paterna” com a figura biológica do pai ou com um papel de gênero masculino. Denise Maurano esclarece que essa função é, essencialmente, a função da Lei e da Interdição.
1. O Lugar do Terceiro
A relação inicial entre mãe (ou cuidador principal) e bebê é de fusão. Para que a criança nasça para o mundo, é necessária a intervenção de um Terceiro. Esse terceiro diz “não” à simbiose, mostrando que a mãe tem outros interesses além do filho, e que o filho deve buscar seu lugar fora desse núcleo.
2. A Crise da Autoridade
Na atualidade, a autoridade simbólica está enfraquecida. Como discute Tereza Sargeu Maia, a falta de mediação simbólica faz com que o poder se manifeste de forma bruta. Sem a “Lei do Pai” (no sentido simbólico de limites e regras compartilhadas), a convivência familiar degenera em relações de força, onde o mais forte (fisicamente ou economicamente) se impõe de forma tirânica, o que explica, em parte, os índices alarmantes de violência doméstica no Brasil.
III. Transgeracionalidade: O Legado do Não-Dito
Talvez o aspecto mais profundo da clínica familiar seja a transgeracionalidade. Maria Angélica Morei explora como o que não foi elaborado pelos avós e pais recai sobre os filhos como um “fantasma”.
1. O Trauma Silencioso
O trauma transgeracional não é transmitido por palavras, mas por silêncios, olhares e comportamentos repetitivos. Um luto não vivido por uma bisavó pode se manifestar como uma depressão inexplicável em um neto. A criança “herda” o inconsciente dos pais, incluindo suas dívidas psíquicas e segredos vergonhosos.
2. O Trabalho de Simbolização
A análise busca transformar o “trauma real” (aquilo que não pode ser dito) em “representação simbólica” (palavra). Romper a corrente transgeracional exige coragem para olhar para a ancestralidade e reconhecer que nem tudo o que recebemos dos nossos antepassados é um presente; às vezes, é uma conta que eles não pagaram.
IV. A Dificuldade de Separação: Do Objeto Mãe ao Sujeito
Jurandir Freire Costa alerta para a dificuldade de separação na cultura contemporânea. Vivemos em uma sociedade que incentiva a dependência prolongada, tanto emocional quanto financeira.
1. A Mãe como Objeto Total
Quando a fusão primordial não é rompida, o filho permanece como um “apêndice” do narcisismo parental. A dificuldade de desmame (emocional e simbólico) impede a construção da identidade. O sujeito não consegue amar ou desejar fora da família porque ainda está preso na demanda de ser “tudo” para o pai ou para a mãe.
2. A Família como Transmissora da Lei
A função essencial da família não é dar felicidade, mas transmitir a cultura e a lei. É ensinar que o mundo tem limites e que a frustração é parte do viver. Ao aceitar a incompletude, a família deixa de ser uma prisão de ideais e se torna uma plataforma para o mundo.
V. Conclusão: A Ética da Incompletude Familiar
A psicanálise não oferece uma receita para a família feliz, mas um caminho para a família possível. Isso implica:
- Abandonar a idealização: Aceitar que pais e filhos falham.
- Resgatar o conflito: Entender que a briga e a divergência são sinais de vida e diferenciação.
- Responsabilização pelo desejo: Assumir que o legado dos antepassados pode ser transformado e que não somos escravos do trauma ancestral.
Em um Brasil marcado por transformações profundas e violências estruturais, a família precisa ser redesenhada como um espaço de acolhimento que suporte a falta. Só assim o sujeito poderá sair do “berço” não como um herdeiro de dores silenciosas, mas como alguém capaz de amar e desejar de forma autônoma.

