O Corpo, o Laço e o Outro: Fronteiras da Psicanálise Contemporânea

Introdução: A Clínica do Social e a Trama dos Vínculos

Se nos módulos anteriores discutimos a exaustão do sujeito diante da produtividade, o quarto módulo mergulha no que há de mais íntimo e, ao mesmo tempo, mais político: o corpo, o gênero e os laços afetivos. A psicanálise brasileira contemporânea, representada por vozes como Maria Homem, Leda Bernardino, Ana Suy e Vera Iaconelli, propõe que não há sujeito fora da linguagem e não há desejo sem a marca da falta.

O desafio atual é compreender como as estruturas clássicas (Édipo, Castração, Narcisismo) se reconfiguram em um mundo de fluidez identitária, vínculos “líquidos” e a queda dos grandes referenciais de autoridade.


I. O Corpo como Inscrição e a Sexualidade como Enigma

Para a psicanálise, o corpo não é o organismo biológico da medicina. Como bem articula Maria Homem, o corpo é uma construção simbólica — uma superfície onde a cultura e a linguagem escrevem suas marcas.

1. A Inscrição do Simbólico

O bebê nasce um “emaranhado de pulsões”. É através do olhar e da fala do Outro (os cuidadores) que esse organismo é capturado pela linguagem e se torna um corpo. As tatuagens, as modificações corporais e até os sintomas somáticos (dores sem causa orgânica) são formas contemporâneas de “escrever” no corpo aquilo que a palavra não consegue dar conta.

2. A Sexualidade como Fracasso Estrutural

Lacan afirmou que “não há relação sexual”. Essa frase, muitas vezes mal compreendida, sustenta a tese de Maria Homem sobre a sexualidade como fracasso. Isso significa que não existe um “encaixe perfeito” entre dois seres. O desejo não busca a completude, mas a repetição de uma falta.

  • O Enigma vs. A Performance: A cultura atual tenta transformar o sexo em uma métrica de desempenho (performance). A psicanálise faz o caminho inverso: ela busca restaurar o enigma. O encontro sexual só é possível quando se aceita que o outro é um mistério e que a “falha” faz parte da intimidade.

II. Narcisismo em Chamas: Gênero e a Angústia da Indeterminação

Leda Bernardino traz uma contribuição vital ao analisar o narcisismo na atualidade. Se antes o narcisismo era uma fase de constituição do Eu, hoje ele aparece como uma estrutura fragmentada.

1. A Tirania do Eu Ideal

O “Eu Ideal” é aquela imagem de perfeição que buscamos projetar. Na era das redes sociais, a distância entre quem somos e quem deveríamos ser (segundo o algoritmo) gera uma ferida narcísica constante. O sujeito sente-se “vazio” quando não recebe a validação externa.

2. As “Férias do Gênero”

O gênero, desvinculado do destino biológico, torna-se uma construção. No entanto, essa liberdade traz a angústia da indeterminação.

  • Fluidez e Pânico: Para alguns, a queda das normas binárias é libertação; para outros, gera pânico pela ausência de “chão” identitário.
  • O Gozo Transgressor: A metáfora das “férias do gênero” sugere momentos em que o sujeito rompe com as normas para afirmar sua própria lei. Contudo, Bernardino alerta: a transgressão deve servir para criar novas formas de vida, e não apenas para alimentar uma onipotência narcísica que nega a alteridade.

III. O Amor e a Solidão Estrutural

A obra de Ana Suy toca em uma ferida aberta da modernidade: a fobia da solidão. A tese central é que “a gente mira no amor e acerta na solidão”.

1. Solidão Estrutural vs. Solidão Contingente

  • Solidão Estrutural: É a condição humana de que ninguém pode sentir pelo outro ou ocupar totalmente o lugar do outro. É o que nos torna sujeitos únicos.
  • O Erro do Amor Neurótico: O neurótico busca o amor para “deixar de ser sozinho”. Ele busca a fusão (a “metade da laranja”). Quando percebe que continua sendo um indivíduo, sente-se traído ou frustrado.

2. O Luto da Fusão

Para amar de forma madura, é preciso fazer o luto da fantasia de completude. Amar é aceitar que o outro é diferente e que a distância entre nós é o que permite o desejo circular. Como diz Suy, a capacidade de estar a sós é a prova de que o sujeito não precisa “devorar” o outro para sobreviver psiquicamente.


IV. Parentalidade: Do Destino à Função Simbólica

Vera Iaconelli desconstrói um dos maiores mitos da cultura ocidental: o instinto materno e a “mãe natureza”.

1. O Mal-estar na Maternidade

Iaconelli legitima que a maternidade é um evento traumático para o narcisismo da mulher. Há um luto da vida anterior e da imagem de perfeição. O “mal-estar” não é uma patologia, mas uma reação estrutural à demanda infinita de um bebê real que substitui o “bebê imaginário” dos sonhos.

2. A Função do Terceiro e a Rede de Apoio

A psicanálise defende a necessidade de um Terceiro (tradicionalmente chamado de Função Paterna, mas que pode ser exercido por qualquer pessoa, instituição ou pela própria lei) para romper a simbiose mãe-bebê.

  • A Ilusão da Simbiose: Se a mãe e o bebê ficam “fechados” um no outro, o sujeito não se desenvolve. O Terceiro introduz o mundo, a lei e o desejo por outras coisas.
  • Politização do Cuidado: A parentalidade não deve ser um fardo individual. Iaconelli propõe que o cuidado com a infância é uma responsabilidade do Grande Outro (a sociedade/Estado). Culpar a mãe isoladamente é um mecanismo de controle social que ignora a necessidade de uma rede de apoio.

V. Conclusão: Uma Ética do Encontro

O quarto módulo nos ensina que a clínica contemporânea deve ser uma clínica do laço. Seja na sexualidade, no gênero, no amor ou na criação de filhos, o segredo não está na busca pela perfeição ou pelo controle, mas na aceitação da castração.

Aceitar a castração significa admitir que:

  1. Meu corpo nunca será perfeito (é linguagem e falha).
  2. Meu gênero não esgota quem eu sou (é fluidez).
  3. O amor não me completa (é encontro de solidões).
  4. A parentalidade não é destino (é função e renúncia).

A psicanálise oferece, portanto, um caminho de liberdade: a liberdade de ser um sujeito que, ao reconhecer sua própria falta, torna-se capaz de verdadeiramente desejar e se vincular ao outro.

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