O Fio de Ariadne na Maturidade: Psicanálise, Finitude e a Reinvenção do Desejo

Introdução: A Velhice como Fronteira Ética

A velhice é, talvez, o espelho mais temido pela cultura contemporânea. No Brasil do século XXI, o envelhecer é atravessado por um paradoxo: os avanços da medicina estendem a cronologia da vida, enquanto a cultura do consumo abrevia o valor simbólico do sujeito idoso. Para a psicanálise, o envelhecimento não é um declínio biológico, mas um tempo subjetivo de intensa atividade, onde o sujeito é convocado a realizar o luto das promessas narcísicas da juventude para dar lugar ao que lhe é mais autêntico.

O desafio clínico e social é retirar o idoso da “invisibilidade” e da “coitadice” para devolvê-lo ao lugar de sujeito desejante. Como discutiremos, envelhecer com dignidade psíquica exige a capacidade de transformar a melancolia em narrativa e a perda em legado.


I. Contra a Barbárie da Invisibilidade

A sociedade neoliberal opera sob a lógica da obsolescência programada. O que não produz e o que não consome tende a ser descartado.

1. A Cultura do Descarte

Como bem pontuam autores como Leopoldina Sequeira, a invisibilidade social é uma das maiores agressões ao idoso. Quando o mundo para de “olhar” para o sujeito envelhecente, ele é empurrado para o que a psicanálise chama de desamparo. A clínica contemporânea insiste que o desejo não se aposenta. O motor da vida — a pulsão — continua ativo até o último suspiro.

2. O Estigma da Fragilidade

A imagem folclórica do idoso como um ser assexuado, passivo e dependente é uma construção defensiva da juventude para negar a própria finitude. A psicanálise rompe com esse estereótipo ao reafirmar que o envelhecimento é um processo de singularização. É o momento em que as máscaras sociais da performance caem, e o que resta é o “caroço” do ser, a sua história singular e irredutível.


II. A Clínica da Finitude: O Fio de Ariadne

A travessia do envelhecimento é comparada por Marília Aires ao mito do labirinto. O “Fio de Ariadne” é a psicanálise, que permite ao sujeito percorrer os corredores da memória sem se perder no desespero.

1. A Elaboração do Luto e a Castração Final

Envelhecer exige sucessivos lutos: a perda da potência física, a perda de pares e amigos, e a perda do “Eu” idealizado e produtivo.

  • A Castração Final: A morte é a castração definitiva. Aceitá-la não significa resignação passiva, mas a compreensão de que a vida é um ciclo com começo, meio e fim.
  • Medo de Morrer vs. Angústia de não ter Vivido: A clínica revela que o maior pavor do idoso raramente é a morte em si, mas a percepção de que sua vida foi uma repetição vazia. O trabalho analítico busca resgatar os momentos de escolha autêntica para que o sujeito possa dizer: “Esta foi a minha vida”.

2. Melancolia vs. Narrativa

Maria Rita Kehl, em suas reflexões sobre o tempo, destaca que o idoso pode cair na melancolia se não encontrar um lugar simbólico na cultura. Quando o “eu jovem” morre e não há um “eu ancião” valorizado pela sociedade, o sujeito se sente um resto. A psicanálise transforma essa melancolia em narrativa, permitindo que o sujeito conte sua história e, ao contá-la, dê sentido às perdas.


III. O Desejo como Motor de Projetos e Causas

Uma das maiores contribuições da psicanálise brasileira é o conceito de que o desejo deve ser mantido vivo até o fim.

1. Projetos e “Bandeiras”

O idoso que deseja é aquele que tem “bandeiras”. Podem ser causas políticas, o cuidado com um jardim, a escrita de memórias ou a transmissão de saber para as gerações mais novas. O desejo é o que nos faz levantar da cama. Sem desejo, o corpo torna-se apenas um organismo biológico em espera.

2. A Invenção do Tempo

Na velhice, o tempo deixa de ser a pressa do relógio (Cronos) para se tornar o tempo da alma (Kairós). É a oportunidade de ressignificar traumas passados. O idoso tem o privilégio da perspectiva; ele pode olhar para trás e “editar” sua própria história, perdoando-se pelas falhas e celebrando as escolhas.


IV. Ética, Culpa e Reparação

Jurandir Freire Costa nos lembra que a velhice é um tempo de balanço ético.

1. O Inocente e o Culpado

Muitas vezes, a angústia da velhice é alimentada pela culpa por erros do passado. A psicanálise oferece um espaço para a reparação simbólica. Não se trata de mudar o passado, mas de mudar a relação que o sujeito tem com o que viveu. Aceitar a própria história, com suas luzes e sombras, é o ápice da maturidade ética.

2. A Transmissão do Legado

O idoso é o guardião da memória. Em um mundo que sofre de amnésia histórica, a partilha da experiência acumulada é um ato político. A dignidade no envelhecer reside em sentir-se parte de uma corrente humana, onde o que foi vivido torna-se semente para quem fica.


V. Conclusão: Pensar a Velhice para Pensar o Humano

Ao encerrar este curso de Psicanálise Contemporânea Brasileira, percebemos que a velhice não é o fim da linha, mas o teste definitivo de nossa teoria e nossa prática. Se a psicanálise pode oferecer algo ao envelhecente, é a garantia de que sua voz ainda importa, que sua dor tem sentido e que sua vida é uma obra inacabada até o último instante.

Envelhecer com psicanálise é:

  1. Sustentar o desejo contra a apatia social.
  2. Ressignificar a dor transformando perda em sabedoria.
  3. Afirmar a singularidade contra a invisibilidade da massa.

Pensar a realidade pelo olhar psicanalítico — na infância, na família, no trabalho ou na velhice — é, como dissemos, a melhor forma de pensar certo. É ver o humano em sua totalidade, com sua falta, seu brilho e sua eterna capacidade de se reinventar.


Guia de Práticas Comentadas: Clínica do Envelhecimento

Prática 1: A Colcha de Retalhos (Ressignificação Narrativa)

  • Exercício: Peça ao sujeito para identificar cinco objetos ou fotografias que representam diferentes fases de sua vida.
  • Comentário: Cada objeto funciona como um ponto de estofo (Lacan). Ao falar sobre eles, o idoso tece uma narrativa que une o passado ao presente, combatendo a fragmentação da memória e a melancolia.
  • Justificativa: Fortalece o sentimento de continuidade do Eu, fundamental para enfrentar a desintegração física.

Prática 2: O Mapa dos Projetos Futuros

  • Exercício: Criar uma lista de três coisas que o sujeito ainda deseja aprender ou realizar (mesmo que sejam pequenas, como ler um livro específico).
  • Comentário: Isso desloca a libido do “passado glorioso” para o “presente/futuro possível”.
  • Justificativa: Mantém a pulsão de vida (Eros) ativa, prevenindo a depressão por desinvestimento libidinal.

Prática 3: O Diálogo das Gerações (Sustentação do Laço)

  • Exercício: Promover encontros onde o idoso narre histórias de superação para pessoas mais jovens.
  • Comentário: Isso retira o idoso da posição de “objeto de cuidado” e o coloca na posição de “sujeito de saber”.
  • Justificativa: Restaura o lugar simbólico do ancião na cultura, combatendo a invisibilidade e a inutilidade percebida.

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