O Grito Silencioso: A Infância Brasileira na Perspectiva da Psicanálise Contemporânea

O campo da infância, outrora visto como um território de inocência e latência, tornou-se, no século XXI, o palco de algumas das mais agudas tensões da civilização ocidental. No Brasil, essas tensões ganham contornos específicos, onde a herança colonial, a desigualdade social e a modernização tecnológica acelerada convergem para criar novos sintomas psíquicos. Este artigo propõe uma análise profunda sobre a infância brasileira sob a lente da psicanálise contemporânea, explorando a crise da autoridade, o império das telas e a patologização do sofrimento.


I. A Constituição do Sujeito e a Crise do Outro Simbólico

Para a psicanálise, a infância não é apenas um período cronológico, mas o tempo da constituição do sujeito. É nesse estágio que o “infans” (aquele que não fala) ingressa no mundo da linguagem através da mediação do Grande Outro. Contudo, vivemos o que Jacques-Alain Miller e outros teóricos lacanianos chamam de “o declínio do Outro”.

1. A Fragilização da Lei e o Nome-do-Pai

Na teoria lacaniana, o Nome-do-Pai é a função simbólica que introduz a Lei e a interdição, permitindo que a criança saia da relação dual e imaginária com a mãe para ingressar na cultura. Na contemporaneidade brasileira, observa-se uma atrofia dessa função. Não se trata da ausência da figura biológica do pai, mas da dificuldade das instâncias de autoridade (família, escola, Estado) em sustentar uma interdição que organize o desejo.

Como aponta Contardo Calligaris, a dificuldade dos adultos em sustentar a própria castração — ou seja, em aceitar que não são tudo e não podem tudo — impede que a criança aprenda a lidar com a falta. Sem o anteparo da Lei, o pequeno sujeito fica desamparado frente a um gozo invasivo, muitas vezes manifestado em comportamentos disruptivos ou apatia profunda.


II. A Criança Digital: O Império da Imagem e a Atrofia da Fantasia

O fenômeno da “criança digital” é, talvez, a mudança mais drástica na estrutura da infância nos últimos vinte anos. A hiperconexão não altera apenas o comportamento social; ela altera a estrutura do aparelho psíquico em formação.

2. A Pedagogia da Gratificação Instantânea

A exposição precoce a algoritmos de recompensa imediata (vídeos curtos, jogos casuais) colide com o que Freud chamou de Princípio da Realidade. O tempo necessário para a simbolização — o tempo do “brincar” no sentido winnicottiano — é substituído pelo tempo do clique.

Maria Regina Machado destaca que a criança precisa de vazio para criar. Quando cada momento de tédio é preenchido pelo brilho de uma tela, o espaço da fantasia atrofia. A fantasia é o recurso que o sujeito possui para elaborar traumas e frustrações; sem ela, o sofrimento é vivido no corpo, de forma bruta, sem a mediação da palavra.

3. O Espelho Quebrado: Narcisismo e Performance

Sob a influência de Jurandir Freire Costa, entendemos que vivemos em uma cultura do narcisismo. As redes sociais transformam a infância em uma vitrine de performance. Exige-se da criança que ela seja o “Eu Ideal” dos pais, uma extensão de seus próprios sucessos. Essa pressão para a transparência e felicidade obrigatória sufoca o sujeito opaco do inconsciente, levando a quadros precoces de depressão e ansiedade.


III. A Medicalização do Sofrimento: O Silenciamento do Sintoma

Diante da complexidade dos novos sintomas — agitação, desatenção, agressividade —, a sociedade brasileira tem respondido com a patologização imediata. O aumento exponencial de diagnósticos de TDAH e Transtorno de Oposição Desafiador (TOD) reflete uma tentativa de “consertar” o que a psicanálise prefere “escutar”.

4. O Sintoma como Mensageiro

Para a psicanálise contemporânea, o sintoma infantil é uma formação do inconsciente. Ele frequentemente “denuncia” algo que não vai bem na estrutura familiar ou social. Ao medicalizar uma criança sem investigar o que o seu comportamento grita, estamos silenciando o sujeito.

Como defende Tânia Coelho dos Santos, o desvio neuroquímico é frequentemente o efeito, e não a causa primária, de um desamparo simbólico. A clínica psicanalítica brasileira resiste a essa redução biológica, insistindo que a criança tem algo a dizer sobre o mundo em que vive.


IV. A Ética da Incompletude e o Espaço do Brincar

A saída para essa crise não reside no retorno a uma autoridade autoritária do passado, mas na construção de uma nova ética: a ética da incompletude.

5. A Relevância do Brincar e da Simbolização

Donald Winnicott ensinou que o brincar é o lugar da saúde. No Brasil, pesquisadores como Maria Rita Kehl mostram que a infância brasileira precisa recuperar o direito ao lúdico não estruturado. Brincar é a forma original de “fazer psicanálise” na infância; é onde a criança simboliza a ausência, o medo e o desejo.

A psicanálise contemporânea atua como um campo de resistência política ao defender que a criança não é um “projeto de adulto” ou um “objeto de consumo”, mas um sujeito singular, dotado de um inconsciente que exige respeito e tempo de elaboração.


V. Conclusão: Um Chamado à Escuta

A infância brasileira está em um momento de encruzilhada. Entre o excesso de estímulo e a falta de mediação, o “grito silencioso” das crianças manifesta-se em sintomas que a medicina clássica nem sempre consegue ler. A psicanálise contemporânea brasileira, munida de rigor teórico e sensibilidade clínica, propõe que voltemos a oferecer à criança o que as telas não podem dar: presença e alteridade.

O futuro da nossa saúde psíquica coletiva depende de como lidamos com os pequenos sujeitos de hoje. É preciso afeto para acolher, limite para estruturar e, acima de tudo, a coragem de suportar o vazio necessário para que a criança possa, finalmente, sonhar.

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