Psicopatologia e a Clínica Clássica na Contemporaneidade Brasileira: Ética, Melancolia e o Objeto da Adicção

A psicanálise no Brasil contemporâneo não é apenas uma prática de consultório; é um campo de resistência intelectual que reinterpreta as psicopatologias clássicas à luz das pressões sociopolíticas e culturais do século XXI. Este artigo aprofunda os quatro pilares fundamentais discutidos no módulo: o ofício ético do analista, a estrutura melancólica, a depressão como sintoma social e a toxicomania como ruptura simbólica.


I. O Ofício do Analista e a Ética da Escuta

A prática psicanalítica começa com a definição do lugar do analista. Segundo Contardo Calligaris, o exercício da clínica exige, antes de tudo, uma renúncia à onipotência.

1. A Recusa ao Lugar de Mestre

Em uma sociedade que demanda resultados rápidos e “curas” adaptativas, o analista deve sustentar o não-saber. A ética psicanalítica não visa a normalização do sujeito, mas a emergência do seu desejo singular. Isso significa que o analista não deve se oferecer como um guia moral ou um “deus” detentor de respostas, mas como um suporte para que o paciente encontre seu próprio caminho.

2. A Transferência: O Motor Duplo

A transferência é o fenômeno central da clínica. Ela é o motor que mobiliza o tratamento, pois o paciente projeta no analista figuras e desejos de sua história. Contudo, ela também é a maior resistência: o paciente muitas vezes prefere “repetir” a cena traumática com o analista do que “recordar” e elaborar o sofrimento. O manejo dessa tensão define o sucesso do tratamento.


II. A Posição Melancólica: A Sombra do Objeto

A distinção entre luto e melancolia, originalmente proposta por Freud e aprofundada por brasileiros como Mario Eduardo Costa Pereira, é crucial para o diagnóstico diferencial.

3. O Fracasso na Simbolização do Luto

No luto normal, o mundo torna-se pobre pela perda de alguém amado. Na melancolia, é o Eu que se torna pobre. Há uma falha na capacidade de simbolizar a perda. Em vez de o sujeito liberar sua energia vital (libido) para novos objetos, ele “incorpora” o objeto perdido. Como diz a famosa frase freudiana: “a sombra do objeto caiu sobre o ego”.

4. A Autoacusação como Ódio Deslocado

A virulência com que o melancólico se ataca — chamando a si mesmo de indigno, culpado ou inútil — é, na verdade, um ódio direcionado ao objeto perdido que não foi devidamente “sepultado”. O sujeito prefere punir-se a admitir a ambivalência (amor e ódio) que sentia pelo outro. Essa paralisia narcísica é o que diferencia a melancolia estrutural de uma tristeza passageira.


III. O Tempo do Desejo vs. O Tempo do Mercado

Maria Rita Kehl traz uma contribuição fundamental ao politizar o sofrimento. Ela argumenta que a depressão contemporânea é um sintoma da nossa cultura.

5. A Depressão como Sintoma Social

Vivemos sob a “tirania da felicidade” e a ilusão de autonomia total. Quando o sujeito falha em atingir o ideal de performance incessante exigido pelo capital, ele cai na depressão. O sofrimento deixa de ser lido apenas como uma questão química individual e passa a ser visto como o custo psíquico de uma sociedade que nega o tempo da elaboração e o direito à tristeza.

6. O Ressentimento e a Paralisia

O ressentimento surge quando o sujeito se sente impotente diante do Outro e transforma essa frustração em uma queixa eterna. O ressentido espera que o Outro (o Estado, o parceiro, a empresa) repare um dano imaginário, o que o impede de assumir a responsabilidade por seu próprio desejo. A clínica, portanto, deve restaurar a lentidão e o tempo lógico contra a urgência do mercado.


IV. Toxicomania: O Curto-Circuito do Simbólico

A perspectiva de Julia Moretto sobre as adicções retira a droga do campo moral e a coloca no campo estrutural do sujeito.

7. A Droga como Objeto ‘a’

Na teoria lacaniana, o objeto ‘a’ é a causa do desejo, algo que está sempre faltando. Na toxicomania, o sujeito tenta “saturar” essa falta com um objeto concreto: a substância. A droga funciona como um objeto que promete um gozo imediato e autista, dispensando a relação com o outro e com a palavra.

8. A Ruptura com o Nome-do-Pai

O ato de consumir compulsivamente é uma “passagem ao ato” que sinaliza uma falha na função do Nome-do-Pai (a função que introduz a lei e o limite). Se a linguagem não é suficiente para mediar a angústia, o sujeito recorre ao corpo e à substância. O desafio clínico não é a abstinência forçada, mas a restauração da capacidade de simbolizar a falta, transformando o gozo destrutivo em desejo de vida.


V. Conclusão: Uma Clínica da Responsabilidade

A psicanálise contemporânea brasileira reafirma que não há solução farmacológica para os dilemas da existência. Seja na depressão, na melancolia ou no vício, o que está em jogo é a posição do sujeito diante da sua própria dor.

O analista, ao sustentar o vazio e a escuta, oferece ao paciente a única ferramenta capaz de romper a repetição neurótica: a palavra. Em um mundo de transparência e rapidez, a clínica clássica sobrevive como um espaço de opacidade e lentidão necessário para que o sujeito possa, finalmente, tornar-se autor da sua própria história.

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